Larissa tem 24 anos, mora em São Paulo e tem três fontes de renda: trabalha como designer freelancer para duas agências, vende cursos online sobre tipografia e, nos fins de semana, dá aulas particulares de design. Ela nunca teve um emprego formal. E não quer ter.
"A ideia de trabalhar para uma empresa por 30 anos e depois me aposentar parece ficção científica para mim", diz ela. "Não é que eu seja preguiçosa. É que eu quero construir algo que seja meu, com a minha cara, no meu ritmo."
Larissa não é exceção. Ela representa uma tendência que está redefinindo o mercado de trabalho brasileiro: a geração Z — nascida entre 1997 e 2012 — está rejeitando o modelo tradicional de carreira e construindo trajetórias profissionais radicalmente diferentes das gerações anteriores.
O que os dados mostram
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva publicada em 2024 mostrou que 67% dos jovens brasileiros de 18 a 27 anos preferem trabalho autônomo ou freelancer ao emprego formal. Entre os que já estão no mercado de trabalho, 43% têm mais de uma fonte de renda.
O número de MEIs (Microempreendedores Individuais) com menos de 30 anos cresceu 180% entre 2019 e 2024. O Brasil tem hoje mais de 2 milhões de jovens empreendedores formalizados — um número que não inclui os que trabalham na informalidade.
"A geração Z não está sendo preguiçosa. Ela está sendo racional. O contrato social do emprego formal — estabilidade em troca de lealdade — foi quebrado pelas gerações anteriores. Os jovens perceberam isso."
— Dra. Ana Flávia Mota, pesquisadora de mercado de trabalho
A rejeição ao burnout
Um dos motores dessa mudança é a rejeição explícita à cultura do burnout. A geração Z cresceu vendo pais e irmãos mais velhos sacrificarem saúde e relacionamentos em nome da carreira — e decidiu que não quer o mesmo destino.
O conceito de "quiet quitting" — fazer apenas o que é necessário no trabalho, sem ir além — ganhou tração nas redes sociais justamente porque articulou algo que muitos jovens já sentiam mas não sabiam nomear. Não é preguiça; é a recusa de se identificar completamente com o trabalho.
Os desafios
A trajetória não é simples. Sem vínculo empregatício formal, esses jovens ficam de fora da previdência social, do FGTS e de outros benefícios. A renda é irregular, o que complica o planejamento financeiro e o acesso a crédito.
Larissa reconhece os desafios. "Tem meses que ganho muito bem, tem meses que fico preocupada. Mas prefiro essa incerteza à certeza de trabalhar para alguém que não respeita meu tempo e minha saúde."
O mercado de trabalho está mudando para se adaptar a essa geração — ou a geração está mudando o mercado de trabalho. Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo.